Fevereiro/2022 – Alterações Radiculares: Hipercementose em forma de espículas e “cemental tear” relato de caso – LXV

postado em: Editorial | 0

Por Lilian Azevedo de Souza e André Yuri Rodrigues Simões

Hipercementose

Caracterizada pela deposição excessiva de cemento nas raízes dentais, a hipercementose é uma forma de hiperplasia não neoplásica. De etiologia desconhecida na maioria dos casos, a hipercementose pode se apresentar de forma generalizada ou localizada.  Dentre possíveis fatores atribuídos, podemos citar:  estresse funcional devido a forças oclusais, irrupção dentária contínua, incorporação de cemento periodontal durante a deposição de cemento fisiológico, deposição reacionária em resposta a processos inflamatórios periapicais, bem como fatores sistêmicos, como aterosclerose, acromegalia, artrite deformante, artrite hipertrófica, doenças da tireoide e doença de Paget.

A hipercementose localizada afeta um único dente e geralmente se apresenta como espessamento generalizado do cemento. As protuberâncias do cemento na forma de espículas são uma condição incomum e uma rara manifestação de hipercementose caracterizada pela presença de pequenos “espinhos” ou protuberâncias na superfície radicular.  A ocorrência destas espículas foi atribuída ao estresse oclusal excessivo ou tensão excessiva do aparelho ortodôntico provavelmente como resultado da deposição de cemento irregular em um grupo focal de fibras do ligamento periodontal ou coalescência de cemento que aderem à raiz ou calcificação de fibra periodontal no local de inserção no cemento.

Caso 1 – figura A – Radiografia panorâmica inicial. Avaliação do elemento dental 15.

Caso 1 – figura B – Cortes tomográficos axiais evidenciando a presença das espículas do cemento em terço apical radicular. Observamos a presença de hipodensidade compatível com rarefação óssea (G). O elemento dental 15 exibe dois condutos radiculares, sendo que o conduto palatal (A) encontra-se sem material obturador endodôntico.

Caso 1 – figura C – Cortes tomográficos coronais evidenciando a presença das espículas do cemento em terço apical radicular (C). O elemento dental 15 exibe dois condutos radiculares, sendo que o conduto palatal (A) encontra-se sem material obturador endodôntico.

Caso 1 – figura D – Cortes tomográficos sagitais evidenciando a presença das espículas do cemento em terço apical radicular (C). Observamos a presença de hipodensidade compatível com rarefação óssea (G).

Cemental Tear

Em tradução literal do inglês, o cemental tear corresponderia a um rasgo na região do cemento; no Brasil, o termo mais utilizado é “deslocamento do cemento radicular”.

 Trata-se de uma condição relevante dentro da endodontia, porém, pouco conhecida. É importante destacar que na maioria das vezes o diagnóstico de cemental tear só ocorre por meio da tomografia computadorizada: a ruptura do cemento pode ser tão discreta, que numa projeção bidimensional (radiografia convencional) seria dificilmente reconhecida. Este deslocamento pode ocorrer a partir da junção amelocementária ou ainda ao longo da raiz.

Sua ocorrência é atribuída à fatores internos da estrutura dentária e fatores externos. Dentre os fatores internos, podemos citar: fraqueza estrutural inerente ao cemento e sua interface com a dentina; deposição de cemento secundário e terciário; certas condições sistêmicas (como por exemplo desnutrição e anemia aplástica); e mudanças relacionadas à idade. Quanto aos fatores externos, foram observados que o trauma dental, trauma oclusal, carga oclusal excessiva (hábitos parafuncionais), terapia periodontal e/ou endodôntica prévia e infecções endoperiodontais podem ser fatores etiológicos.  Na prática é comum que descolamentos do cemento sejam mal diagnosticados como fraturas radiculares, lesão endoperiodontais ou como falhas no tratamento endodôntico.  O manejo clínico pode se concentrar na remoção completa dos fragmentos e tratamento periodontal, frequentemente associado ao tratamento regenerativo.

Cemental tear: rasgo ou descolamento do cemento radicular adjacente aos terços cervical e médio da fase mesial do dente 11; nota-se acentuada reabsorção óssea vertical também por mesial à região correspondente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Capella LRC, Oliveira, RJ. Atlas de Radiografia Panorâmica para o Cirurgião-Dentista. São Paulo: Editora Santos, 2014.

Jeddy N, Radhika T, Krithika C, Saravanan R, Ramachandran P. Localized multiple cemental excrescenses: a rare presentation of hypercementosis. J Clin Diagn Re. 2014; 8(5): ZD16-ZD17.

Papaiz EG, Capella LRC, Oliveira RJ. Atlas de Tomografia Computadorizada por Feixe Cônico para o Cirurgião dentista. São Paulo: Editora Santos, 2011

Patel S, Durack C, Abella F, Roig M , Shemesh H, Lambrechts P, Lemberg K. European Society of Endodontology position statement: The use of CBCT in Endodontics. 2014 Int Endod J, 47, 502–504

Pinheiro BC, Pinheiro TN, Capelozza ALA, Consolaro A. A scanning electron microscopiic study of hypercementosis. J. Appl Oral Sci. 2008; 16(6): 380-4.